INTRODUÇÃO À PSICOLOGIA CLÍNICA
Módulo 2 — O processo clínico e a relação terapêutica
Aula 1 — Acolhimento, entrevista inicial e compreensão da demanda
O primeiro encontro com um psicólogo costuma ser acompanhado por dúvidas e inseguranças. Algumas pessoas chegam sabendo exatamente o que desejam conversar. Outras sentem apenas que alguma coisa não está bem, mas ainda não conseguem organizar o sofrimento em palavras. Há também quem procure atendimento por recomendação de familiares, médicos, professores ou outros profissionais.
Por isso, a primeira entrevista não deve ser tratada como um interrogatório nem como uma simples coleta de informações. Ela é, antes de tudo, um momento de acolhimento, escuta e construção de confiança. Estudos sobre serviços psicológicos destacam que o acolhimento inicial permite reconhecer a queixa, compreender os elementos apresentados pela pessoa e avaliar quais formas de cuidado podem ser mais adequadas.
O que significa acolher?
Acolher não significa concordar com tudo o que a pessoa diz, oferecer respostas imediatas ou prometer que seus problemas serão resolvidos rapidamente. O acolhimento é uma postura profissional baseada em disponibilidade, respeito e atenção à experiência apresentada.
Uma pessoa pode chegar à primeira sessão envergonhada, desconfiada ou com medo de ser julgada. Quando encontra um ambiente seguro, torna-se mais fácil falar sobre experiências difíceis e participar das decisões relacionadas ao acompanhamento.
O acolhimento também reconhece que cada sofrimento possui uma história. Duas pessoas podem apresentar sintomas semelhantes, mas precisar de cuidados diferentes. Uma dificuldade para dormir, por exemplo, pode estar relacionada à ansiedade, ao luto, às condições de trabalho, a problemas físicos, ao uso de substâncias ou a alterações importantes na rotina.
O psicólogo não deve concluir antecipadamente qual é a causa. Sua tarefa inicial é escutar, fazer perguntas pertinentes e compreender como aquela dificuldade aparece na vida da pessoa. Pesquisas brasileiras mostram que o acolhimento contribui para a construção do vínculo, para o reconhecimento da subjetividade e para a aproximação entre o usuário e o serviço de saúde.
A primeira entrevista
A entrevista inicial é uma conversa profissional orientada por objetivos clínicos. Ela permite conhecer o motivo da procura, avaliar necessidades imediatas, esclarecer o funcionamento do atendimento e verificar se o serviço oferecido corresponde à demanda apresentada.
Embora
receba o nome de primeira entrevista, esse processo nem sempre precisa ser concluído em um único encontro. Algumas pessoas necessitam de mais tempo para falar sobre situações delicadas. Outras se lembram de informações importantes somente depois que o vínculo começa a se formar.
O psicólogo pode utilizar uma entrevista mais aberta, deixando que a pessoa organize livremente seu relato, ou uma entrevista semiestruturada, combinando escuta livre com perguntas previamente planejadas. A escolha depende da finalidade do atendimento, da abordagem teórica e das características do caso.
Uma entrevista muito rígida pode fazer a pessoa sentir que está respondendo a um formulário. Por outro lado, uma conversa completamente sem direção pode deixar de identificar informações importantes. O equilíbrio está em permitir que a pessoa fale com liberdade, enquanto o profissional organiza a investigação de maneira cuidadosa.
A primeira entrevista é considerada um momento fundamental para conhecer o paciente, construir o contrato terapêutico e definir os próximos passos do acompanhamento.
Queixa e demanda não são a mesma coisa
A queixa é aquilo que a pessoa apresenta de maneira mais direta. Ela pode dizer:
“Não consigo dormir.”
“Tenho brigado muito com meu marido.”
“Meu filho não quer ir à escola.”
“Estou tendo crises de ansiedade.”
“Não sinto vontade de fazer nada.”
A demanda é mais ampla. Ela corresponde às necessidades, conflitos, expectativas e condições relacionadas à queixa. Nem sempre aparece claramente no início do atendimento. Muitas vezes, é construída e compreendida ao longo das entrevistas.
Considere o caso de uma mulher que procura ajuda por causa da insônia. Durante a conversa, revela que recebeu uma promoção no trabalho e passou a acreditar que não possui competência para a nova função. Ela leva tarefas para casa, revisa o mesmo trabalho várias vezes e permanece acordada pensando nos possíveis erros.
A insônia é a queixa inicial. A demanda pode envolver ansiedade, medo de fracassar, excesso de cobrança e dificuldade de estabelecer limites entre trabalho e descanso.
Compreender essa diferença evita que o atendimento se limite ao sintoma mais visível. Em serviços clínicos, as entrevistas iniciais podem auxiliar a pessoa a transformar uma queixa ainda pouco organizada em uma demanda de tratamento mais clara, além de orientar os encaminhamentos necessários.
O que investigar no primeiro atendimento?
Não existe uma lista que precise ser aplicada da mesma maneira a todas as pessoas.
Entretanto, algumas informações costumam ser importantes para compreender o caso.
O psicólogo pode perguntar quando o problema começou, em quais situações aparece, o que parece agravá-lo e como ele afeta a rotina. Também pode investigar relações familiares e sociais, trabalho, estudos, condições de saúde, uso de medicamentos, consumo de álcool ou outras substâncias e experiências anteriores de acompanhamento psicológico.
É importante conhecer os recursos da pessoa, e não apenas suas dificuldades. Apoio familiar, amizades, atividades significativas, espiritualidade, interesses, projetos e estratégias de enfrentamento podem participar do cuidado.
O profissional também deve observar se existem situações que exigem atenção imediata, como violência, abandono, risco de suicídio, alterações graves de comportamento ou incapacidade de realizar atividades básicas.
Essas perguntas precisam ser feitas com sensibilidade. Investigar risco não significa tratar a pessoa como perigosa. Significa reconhecer que algumas situações exigem medidas de proteção e articulação com outros serviços.
Perguntas abertas e perguntas fechadas
As perguntas abertas permitem que a pessoa desenvolva a resposta com suas próprias palavras. Alguns exemplos são:
“O que fez você procurar atendimento neste momento?”
“Como essa situação tem afetado sua rotina?”
“O que costuma acontecer antes da crise?”
“Como sua família reage quando você está passando por isso?”
“Que tipo de ajuda você espera encontrar aqui?”
Já as perguntas fechadas buscam informações mais específicas e costumam admitir respostas breves:
“Você está usando algum medicamento?”
“As crises acontecem todos os dias?”
“Você já realizou acompanhamento psicológico?”
“Existe alguém com quem possa contar?”
As duas formas de perguntar podem ser úteis. O problema surge quando toda a entrevista é conduzida apenas por questões fechadas. Nesse caso, a pessoa pode sentir que está sendo examinada, sem espaço para explicar o significado de suas experiências.
Uma boa entrevista combina perguntas abertas, esclarecimentos e momentos de silêncio. O psicólogo não precisa preencher imediatamente cada pausa. Às vezes, o silêncio indica que a pessoa está tentando organizar uma lembrança ou encontrar palavras para uma experiência difícil.
Escuta clínica
Escutar clinicamente é diferente de apenas ouvir. A escuta exige atenção ao conteúdo da fala, às emoções, aos silêncios, às contradições e às mudanças na maneira de narrar os acontecimentos.
Quando uma pessoa diz “está tudo bem”
enquanto chora, existe uma diferença entre as palavras e a expressão emocional. O psicólogo pode apontar essa diferença com cuidado:
“Você diz que está tudo bem, mas percebo que falar sobre isso despertou muita emoção.”
Essa intervenção não apresenta uma interpretação fechada. Ela convida a pessoa a observar a própria experiência.
A escuta clínica também evita julgamentos precipitados. Se alguém afirma que deseja abandonar o emprego, o profissional não deve responder imediatamente que essa decisão é certa ou errada. Pode perguntar o que tornou o trabalho insustentável, quais consequências a saída produziria e que alternativas estão disponíveis.
Pesquisas sobre triagem e plantão psicológico mostram que a escuta clínica não serve apenas para classificar demandas. O próprio encontro pode produzir alívio, organização emocional e maior compreensão sobre o motivo da procura.
A importância das expectativas
Nem todas as pessoas sabem como funciona a psicoterapia. Algumas esperam receber conselhos diretos. Outras acreditam que serão avaliadas por testes ou que o psicólogo descobrirá rapidamente a causa de seus problemas.
Por isso, é importante perguntar o que a pessoa espera do atendimento. Essa conversa ajuda a corrigir ideias equivocadas e a construir objetivos possíveis.
O psicólogo pode explicar que o acompanhamento é um processo colaborativo. O profissional oferece escuta, conhecimento técnico e intervenções, mas a pessoa também participa da compreensão do problema e das decisões sobre os objetivos.
Compreender as expectativas pode favorecer a adesão ao acompanhamento. Quando elas não são discutidas, o paciente pode imaginar que a terapia está fracassando apenas porque o profissional não oferece respostas prontas ou porque as mudanças não aparecem imediatamente.
O contrato terapêutico
O contrato terapêutico reúne os acordos necessários para organizar o atendimento. Ele não precisa ser apresentado de maneira fria ou burocrática, mas deve ser claro.
Entre os aspectos que podem ser combinados estão a duração e a frequência das sessões, os horários, os honorários, as regras de cancelamento, as formas de contato e as condições de sigilo.
Também é importante explicar que o sigilo profissional protege as informações compartilhadas, mas pode apresentar limites em situações graves de risco ou nas circunstâncias previstas pelas normas profissionais e pela legislação.
No atendimento de crianças e adolescentes, devem ser esclarecidas as responsabilidades dos responsáveis e a forma como
atendimento de crianças e adolescentes, devem ser esclarecidas as responsabilidades dos responsáveis e a forma como as informações serão comunicadas. O pagamento das sessões não concede acesso irrestrito ao conteúdo discutido.
Esses acordos ajudam a criar segurança. Quando as regras permanecem pouco claras, podem surgir conflitos, como expectativas de atendimento por mensagens a qualquer horário ou dúvidas sobre quais informações serão compartilhadas com familiares.
A observação clínica
Além da fala, o psicólogo observa como a pessoa se apresenta e se relaciona durante o encontro. Isso pode incluir seu nível de atenção, a organização do pensamento, a maneira de expressar emoções e possíveis dificuldades de compreensão ou comunicação.
Essas observações não devem ser usadas para tirar conclusões rápidas. Uma pessoa que evita contato visual pode estar ansiosa, envergonhada, cansada ou apenas possuir uma forma particular de interação. O significado precisa ser compreendido dentro do contexto.
O psicólogo deve ter cuidado para não transformar diferenças culturais, sociais ou pessoais em sinais de doença. A observação clínica precisa ser acompanhada de perguntas, hipóteses provisórias e respeito à singularidade.
Formulação inicial e planejamento
Após os primeiros encontros, o profissional começa a organizar uma compreensão inicial do caso. Essa formulação pode considerar fatores que contribuíram para o problema, acontecimentos que desencadeiam o sofrimento, comportamentos que o mantêm e recursos disponíveis.
A formulação não é uma sentença definitiva. Ela funciona como uma hipótese de trabalho e pode mudar quando novas informações aparecem.
Imagine um homem que procura atendimento relatando irritabilidade. A investigação mostra que ele trabalha à noite, dorme poucas horas, cuida de um familiar doente e evita pedir ajuda porque acredita que precisa resolver tudo sozinho.
A irritabilidade não pode ser compreendida isoladamente. Ela pode estar relacionada à privação de sono, à sobrecarga, às responsabilidades familiares e às crenças sobre força e dependência.
Com base nessa compreensão, psicólogo e paciente podem construir objetivos iniciais, como reorganizar a rotina, ampliar a rede de apoio e desenvolver formas mais adequadas de expressar necessidades.
Quando encaminhar?
Nem toda pessoa que chega a um serviço precisa iniciar psicoterapia naquele local. A entrevista inicial também serve para avaliar se há necessidade de outro tipo de cuidado.
Uma pessoa com sintomas físicos
importantes pode precisar de avaliação médica. Em situações de sofrimento intenso, pode ser necessário acompanhamento psiquiátrico ou atendimento em um serviço especializado. Demandas sociais podem exigir articulação com assistência social, serviços de proteção ou outras instituições.
Encaminhar não significa livrar-se do paciente. O encaminhamento responsável inclui explicar as razões, indicar possibilidades e, quando necessário e autorizado, colaborar com a continuidade do cuidado.
A avaliação psicológica também não deve ser confundida com uma entrevista informal. O CFP define a avaliação psicológica como um processo estruturado de investigação, realizado de acordo com demandas, condições e finalidades específicas.
Erros comuns no primeiro atendimento
Um erro frequente é fazer perguntas em excesso, sem permitir que a pessoa desenvolva sua história. Outro é interpretar rapidamente cada fala com base em uma teoria.
Também é inadequado oferecer diagnósticos precipitados, prometer resultados ou garantir que determinado tratamento resolverá o problema. O profissional deve evitar ainda comparações com outros pacientes e relatos de experiências pessoais que desviem o foco da pessoa atendida.
Outro equívoco é ignorar fatores sociais e concentrar toda a explicação no indivíduo. Desemprego, violência, discriminação, sobrecarga de cuidados e dificuldades de acesso a direitos podem produzir sofrimento real. Nem todo problema pode ser resolvido apenas com mudanças individuais.
Esses erros são evitados quando o psicólogo mantém uma postura curiosa, ética e aberta à revisão. Em vez de tentar demonstrar que já possui todas as respostas, ele procura compreender o que aquela experiência significa para a pessoa.
Considerações finais
A entrevista inicial é o começo de uma relação de cuidado. Sua função não é recolher o maior número possível de informações nem chegar rapidamente a uma conclusão. O objetivo é oferecer acolhimento, compreender a queixa, construir a demanda e avaliar os caminhos mais adequados.
Uma escuta cuidadosa permite que a pessoa organize experiências que antes pareciam confusas. Ao mesmo tempo, fornece ao psicólogo elementos para planejar o acompanhamento e reconhecer situações que exigem encaminhamento ou proteção imediata.
O bom primeiro encontro combina atenção humana e responsabilidade técnica. A pessoa precisa sentir que foi ouvida, mas também deve receber informações claras sobre o serviço, seus limites e suas possibilidades.
Na Psicologia Clínica, compreender
Psicologia Clínica, compreender vem antes de explicar. Quanto mais o profissional evita respostas prontas e se dispõe a conhecer a experiência apresentada, maiores são as possibilidades de construir um acompanhamento coerente, seguro e significativo.
Referências bibliográficas
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Cartilha de avaliação psicológica. 2. ed. Brasília, DF: CFP, 2022.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Referências técnicas para atuação de psicólogas e psicólogos na atenção básica à saúde. Brasília, DF: CFP, 2019.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Referências técnicas para atuação de psicólogas e psicólogos nos Centros de Atenção Psicossocial. Brasília, DF: CFP, 2022.
MACÊDO, Shirley; SILVA, Felipe Emanoel de Oliveira; SOUZA, Bruna Wérica Sales de. Escuta clínica, triagem e plantão psicológico em um serviço-escola. Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília, v. 41, 2021.
MURTA, Sheila Giardini; ROCHA, Sheila de Gusmão. Instrumento de apoio para a primeira entrevista em psicoterapia cognitivo-comportamental. Psicologia Clínica, Rio de Janeiro, v. 26, n. 2, 2014.
PAPARELLI, Renata Bessa; NOGUEIRA-MARTINS, Maria Cezira Fantini. Psicólogos em formação: vivências e demandas em plantão psicológico. Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília, v. 27, n. 1, 2007.
PERFEITO, Hélvia Cristine Castro Silva; MELO, Sandra Augusta de. Evolução dos processos de triagem psicológica em uma clínica-escola. Estudos de Psicologia, Campinas, v. 21, n. 1, 2004.
ROCHA, Maíra dos Santos; BORIS, Georges Daniel Janja Bloc; MOREIRA, Virginia. Acolhimento em saúde mental: um recorte psicanalítico. Cadernos de Psicanálise, Rio de Janeiro, v. 43, n. 45, 2021.
ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.
Aula 2 — Vínculo terapêutico, empatia e comunicação clínica
A Psicologia Clínica não se sustenta apenas em teorias e técnicas. Para que o acompanhamento tenha sentido, é necessário construir uma relação na qual a pessoa se sinta respeitada, segura e verdadeiramente ouvida. Essa relação recebe o nome de vínculo ou aliança terapêutica.
A aliança terapêutica pode ser entendida como uma parceria de trabalho entre o psicólogo e a pessoa atendida. Ela envolve confiança, compromisso com o processo, concordância possível sobre os objetivos e colaboração nas atividades realizadas durante o acompanhamento. Pesquisas sobre psicoterapia apontam que a qualidade dessa relação está associada ao desenvolvimento e aos resultados do tratamento, embora não seja o único fator responsável pelas
mudanças.
Construir um vínculo não significa tornar-se amigo do paciente nem concordar com tudo o que ele diz. Trata-se de oferecer uma relação profissional acolhedora, com limites claros, na qual experiências difíceis possam ser examinadas sem humilhação, imposição ou julgamento precipitado.
Como o vínculo terapêutico é construído
O vínculo começa a se formar desde o primeiro contato. A maneira como o psicólogo recebe a pessoa, explica o funcionamento do serviço, responde às dúvidas e demonstra interesse pela sua história pode favorecer ou dificultar a confiança.
Algumas pessoas chegam à clínica depois de terem sido desacreditadas por familiares, colegas ou outros profissionais. Podem sentir vergonha, medo de parecer fracas ou receio de que suas informações sejam divulgadas. Nesses casos, a confiança dificilmente será estabelecida apenas porque o psicólogo afirma que o ambiente é seguro. Ela será construída pela coerência de suas atitudes ao longo do tempo.
Pontualidade, respeito ao sigilo, atenção durante a sessão e clareza sobre os limites do atendimento são elementos importantes. Quando o profissional parece distraído, muda frequentemente os acordos ou faz comentários julgadores, a pessoa pode começar a esconder informações ou abandonar o processo.
A construção do vínculo também depende da participação do paciente. Algumas pessoas conseguem confiar rapidamente, enquanto outras precisam de mais tempo. O psicólogo deve respeitar esse ritmo, sem pressionar a revelação de conteúdos para os quais ainda não existe segurança suficiente.
Aliança terapêutica não é apenas simpatia
É possível gostar do psicólogo e, ainda assim, não existir uma boa aliança de trabalho. Da mesma forma, o atendimento pode abordar assuntos desconfortáveis sem que isso signifique ausência de vínculo.
A relação terapêutica envolve pelo menos três aspectos: a criação de uma ligação emocional respeitosa, a definição de objetivos compreensíveis e a colaboração nas tarefas necessárias ao processo.
Imagine uma pessoa que procura atendimento porque evita falar em reuniões. Psicólogo e paciente podem estabelecer como objetivo compreender o medo de exposição e desenvolver maneiras graduais de participar desses encontros. As tarefas podem incluir observar os pensamentos que aparecem antes das reuniões, analisar situações anteriores e experimentar novos comportamentos.
Quando o paciente não entende por que determinada técnica está sendo proposta, pode sentir que apenas cumpre ordens. Por isso, é importante
o paciente não entende por que determinada técnica está sendo proposta, pode sentir que apenas cumpre ordens. Por isso, é importante explicar o objetivo das intervenções e verificar se elas fazem sentido para sua realidade.
A psicoterapia não deve ser conduzida como um tratamento imposto. Mesmo quando o profissional possui conhecimentos que o paciente não possui, o acompanhamento precisa conservar seu caráter colaborativo.
O que é empatia?
Empatia é a capacidade de procurar compreender a experiência da outra pessoa a partir do modo como ela a vive. Na clínica, isso exige atenção não apenas aos fatos narrados, mas também aos sentimentos, significados e conflitos envolvidos.
Ser empático não é imaginar rapidamente como o psicólogo se sentiria na mesma situação. Essa atitude pode levar a comparações inadequadas. O profissional precisa tentar compreender como aquela pessoa, com sua história e suas condições de vida, percebe o acontecimento.
Considere uma paciente que relata estar profundamente abalada porque uma amizade terminou. O psicólogo pode pensar que rompimentos de amizade são comuns e que a reação parece exagerada. No entanto, para aquela pessoa, a amizade talvez representasse sua principal fonte de apoio e pertencimento.
Uma resposta empática poderia ser:
“Essa amizade ocupava um lugar muito importante em sua vida. Além da pessoa, parece que você perdeu um espaço no qual se sentia acolhida.”
A empatia é reconhecida como um elemento relevante da relação terapêutica em diferentes abordagens psicológicas. Entretanto, ela não substitui a avaliação, o conhecimento técnico ou o planejamento das intervenções.
Empatia não significa concordar
O psicólogo pode compreender o sofrimento de uma pessoa sem aprovar todas as suas ações. Essa diferença é fundamental.
Um pai pode relatar que gritou e quebrou objetos durante uma discussão com o filho. Uma resposta empática não deve justificar a agressividade. O profissional pode reconhecer o estado emocional e, ao mesmo tempo, ajudar o paciente a assumir responsabilidade:
“Você parece ter se sentido muito frustrado e sem recursos naquele momento. Ao mesmo tempo, sua reação assustou seu filho e precisa ser examinada com cuidado.”
Essa forma de comunicação acolhe a emoção sem normalizar uma conduta prejudicial. A empatia clínica não retira a responsabilidade individual nem impede que o psicólogo aborde consequências, riscos e necessidade de mudança.
Também é importante evitar uma falsa empatia baseada em frases automáticas, como “eu
sei exatamente o que você está sentindo”. Mesmo quando o profissional passou por uma situação semelhante, não conhece completamente a experiência do outro.
Uma alternativa mais cuidadosa seria:
“Não posso sentir exatamente o que você sente, mas quero compreender como isso tem sido para você.”
Validação emocional
Validar uma emoção significa reconhecer que ela possui sentido dentro da história e da situação da pessoa. Isso não significa confirmar que todas as suas interpretações sejam verdadeiras.
Imagine que um trabalhador diga:
“Meu chefe não respondeu à mensagem porque está planejando me demitir.”
O psicólogo não precisa afirmar que essa conclusão está correta. Pode responder:
“A falta de resposta despertou um medo intenso de perder o emprego. Vamos compreender por que esse silêncio foi associado imediatamente à demissão.”
A emoção é reconhecida, enquanto a interpretação permanece aberta à investigação.
Invalidar seria responder:
“Você está exagerando.”
“Isso não é motivo para ficar assim.”
“Pare de pensar negativamente.”
Essas frases podem transmitir a ideia de que a emoção é inadequada ou absurda. Como consequência, a pessoa pode sentir vergonha e deixar de compartilhar o que realmente pensa.
A validação não deve ser utilizada de maneira artificial. Repetir mecanicamente “entendo como você se sente” pode parecer vazio. É necessário demonstrar, por meio das respostas, que o conteúdo apresentado foi acompanhado com atenção.
Comunicação verbal e não verbal
Na clínica, a comunicação ocorre por palavras, tom de voz, postura, expressão facial, ritmo da fala e silêncio. Um psicólogo pode dizer que está interessado, mas olhar repetidamente para o relógio ou para o celular. A mensagem transmitida pelo comportamento pode ser mais forte do que a fala.
O profissional precisa observar também os sinais apresentados pelo paciente. Uma pessoa pode afirmar que está tranquila enquanto fala rapidamente, aperta as mãos e evita determinado assunto. Esses sinais não devem ser transformados imediatamente em interpretações. Eles podem ser apresentados como observações:
“Quando começamos a falar sobre sua família, percebi que sua voz ficou mais baixa. Como está sendo conversar sobre isso?”
A pergunta dá ao paciente a oportunidade de confirmar, corrigir ou ampliar a observação. O psicólogo não deve agir como se conhecesse melhor do que a própria pessoa tudo o que ela sente.
A comunicação clínica precisa ser clara e adequada à capacidade de compreensão de quem recebe a informação. Termos técnicos
podem ser necessários em documentos e discussões profissionais, mas não devem ser usados para criar distância ou demonstrar superioridade.
Em vez de dizer que o paciente apresenta “cognições disfuncionais relacionadas à avaliação social”, pode ser mais didático explicar:
“Você parece interpretar qualquer pequena falha como prova de que as pessoas o consideram incapaz.”
Perguntar, resumir e esclarecer
As perguntas ajudam a compreender a experiência, mas precisam ter uma finalidade. Perguntas em excesso podem transformar a sessão em um interrogatório.
Questões abertas permitem respostas mais amplas:
“O que aconteceu depois disso?”
“Como você interpretou aquela reação?”
“O que essa situação representa para você?”
Perguntas mais diretas são úteis quando é necessário esclarecer informações:
“Isso acontece todas as semanas?”
“Você já pensou em se machucar?”
“Existe alguém que possa ajudá-lo hoje?”
O psicólogo também pode resumir o que compreendeu:
“Nas últimas semanas, você recebeu novas responsabilidades, começou a dormir menos e passou a acreditar que qualquer erro poderá causar sua demissão. Foi isso?”
O resumo organiza as informações e permite que o paciente corrija possíveis equívocos.
Outra intervenção importante é pedir esclarecimento. Quando uma pessoa afirma “ninguém se importa comigo”, o psicólogo pode perguntar quem está incluído nessa afirmação e quais acontecimentos produziram essa sensação. O objetivo não é contestar imediatamente sua percepção, mas compreendê-la de maneira mais concreta.
O uso do silêncio
O silêncio pode ser uma parte valiosa da comunicação clínica. Algumas experiências são difíceis de colocar em palavras, e a pessoa pode precisar de tempo para reconhecer o que está sentindo.
Preencher cada pausa com perguntas pode interromper esse processo. Por outro lado, permanecer em silêncio de maneira rígida e prolongada pode ser percebido como indiferença, abandono ou julgamento.
O significado do silêncio depende da situação. Ele pode indicar reflexão, medo, vergonha, emoção intensa, dificuldade de compreensão ou resistência em abordar determinado conteúdo.
O psicólogo pode acompanhar o silêncio e, quando necessário, oferecer apoio:
“Percebo que ficou difícil continuar. Podemos permanecer um pouco em silêncio ou conversar sobre o que apareceu agora.”
Essa intervenção devolve alguma escolha à pessoa e demonstra que o profissional continua presente.
Autenticidade e limites profissionais
Uma relação terapêutica não precisa ser fria. O psicólogo pode demonstrar
sensibilidade, preocupação e humanidade. Contudo, suas manifestações precisam estar a serviço do paciente, e não da satisfação de necessidades pessoais.
Compartilhar uma experiência própria pode ser adequado em situações específicas, desde que exista uma finalidade clínica clara. O problema ocorre quando o profissional passa a falar de si com frequência, busca apoio emocional no paciente ou transforma a sessão em uma conversa sobre sua própria vida.
Se uma paciente relata o falecimento da mãe, o psicólogo não deve contar detalhadamente como viveu seu próprio luto apenas porque se identificou com a história. Antes de compartilhar algo pessoal, precisa refletir se essa informação realmente beneficiará a paciente ou apenas aliviará sua própria emoção.
Autenticidade também não significa dizer tudo o que se pensa. O profissional precisa comunicar-se com honestidade, mas deve avaliar a utilidade e os efeitos de suas palavras.
Rupturas no vínculo
Mesmo em um acompanhamento bem conduzido, podem ocorrer momentos de tensão. O paciente pode sentir-se incompreendido, discordar de uma interpretação, considerar uma pergunta invasiva ou achar que seus objetivos não estão sendo considerados.
Essas situações são chamadas de rupturas na aliança terapêutica. Elas podem aparecer de forma direta, quando a pessoa reclama ou confronta o psicólogo, ou de maneira indireta, por meio de silêncio, afastamento, faltas frequentes e menor participação.
O erro do profissional seria considerar automaticamente toda discordância como resistência ao tratamento. Também seria inadequado responder de forma defensiva, tentando provar que sua intervenção estava correta.
Uma pergunta possível seria:
“Na última sessão, tive a impressão de que minha fala causou desconforto. Como você recebeu aquilo?”
Essa abertura permite que o paciente fale sobre a própria experiência. Pesquisas indicam que rupturas não reconhecidas podem contribuir para a interrupção da psicoterapia, enquanto sua discussão pode favorecer a compreensão e a continuidade do processo.
Reparar uma ruptura pode exigir que o psicólogo reconheça um erro. Pedir desculpas por uma fala inadequada não destrói sua autoridade profissional. Ao contrário, pode demonstrar responsabilidade e respeito.
Diferenças culturais e comunicação
A comunicação clínica é influenciada pela cultura, pela escolaridade, pela idade, pela religião, pelas condições sociais e pelas experiências de discriminação. O psicólogo não deve interpretar comportamentos apenas a partir de
seus próprios padrões.
Evitar contato visual, por exemplo, pode ter significados distintos. Pode expressar vergonha, ansiedade, respeito, hábito cultural ou uma característica individual. O profissional precisa investigar antes de concluir.
Também deve adaptar sua comunicação quando atende crianças, idosos, pessoas com deficiência ou indivíduos que apresentam dificuldades de compreensão. Adaptações e recursos de acessibilidade podem fortalecer a autonomia e ampliar a participação no cuidado.
Respeitar diferenças não significa deixar de fazer perguntas. Significa perguntar com abertura, reconhecer os próprios limites de conhecimento e evitar transformar modos diferentes de viver em sinais automáticos de doença.
Erros comuns na construção do vínculo
Um erro frequente é tentar criar proximidade rápida demais. O excesso de intimidade, o uso inadequado de apelidos e o compartilhamento constante de experiências pessoais podem gerar confusão sobre a natureza profissional da relação.
Outro erro é utilizar uma postura excessivamente distante, como se neutralidade significasse ausência de emoção. A pessoa pode interpretar essa atitude como desinteresse.
Também prejudicam o vínculo:
Esses erros podem ser reduzidos quando o profissional acompanha não apenas o conteúdo das sessões, mas também a qualidade da relação. Perguntar periodicamente como o paciente percebe o processo ajuda a identificar problemas antes que provoquem o abandono.
Considerações finais
O vínculo terapêutico é uma parceria construída gradualmente. Ele depende de confiança, clareza, respeito, colaboração e capacidade de conversar também sobre os momentos difíceis da própria relação.
A empatia permite compreender a experiência da pessoa sem confundi-la com a experiência do psicólogo. A validação reconhece emoções sem confirmar automaticamente todas as interpretações. A comunicação clínica organiza o diálogo por meio de perguntas, observações, resumos, esclarecimentos e silêncios utilizados com sensibilidade.
Uma boa relação terapêutica não elimina conflitos nem garante que toda intervenção será bem recebida. Seu valor está também na possibilidade de reconhecer desencontros, conversar sobre eles e
reconstruir a colaboração.
Na Psicologia Clínica, a técnica não deve ser separada da relação humana. Uma intervenção teoricamente adequada pode perder seu efeito quando é apresentada de maneira autoritária ou insensível. Da mesma forma, acolhimento sem conhecimento técnico pode não ser suficiente para atender às necessidades da pessoa.
O cuidado clínico exige ambos: competência profissional e uma relação na qual o paciente possa sentir-se respeitado, compreendido e participante ativo de seu próprio processo.
Referências bibliográficas
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. A psicoterapia como ofício na Psicologia. Brasília, DF: CFP, 2025.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília, DF: CFP, 2005.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Reflexões e orientações sobre a prática da psicoterapia. Brasília, DF: CFP, 2023.
FALCONE, Eliane Mary de Oliveira; GIL, Daniela Brasil de Albuquerque; FERREIRA, Maria Cristina. Um estudo comparativo da frequência de verbalização empática entre psicoterapeutas de diferentes abordagens teóricas. Estudos de Psicologia, Campinas, v. 24, n. 4, 2007.
MARCOLINO, José Álvaro Marques; IACOPONI, Eduardo. A escala de aliança psicoterápica da Califórnia na versão do paciente. Revista Brasileira de Psiquiatria, São Paulo, v. 23, n. 2, 2001.
OLIVEIRA, Nádia Regina de; BENETTI, Silvia Pereira da Cruz. Aliança terapêutica: estabelecimento, manutenção e rupturas da relação. Arquivos Brasileiros de Psicologia, Rio de Janeiro, v. 67, n. 3, 2015.
PEUKER, Ana Carolina; HABIGZANG, Luísa Fernanda; KOLLER, Sílvia Helena; ARAÚJO, Lisiane Bizarro. Avaliação de processo e resultado em psicoterapias: uma revisão. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 14, n. 3, 2009.
ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.
SANTOS, Cátia de Sousa; OSÓRIO, Flávia de Lima. Empatia e relação terapêutica na psicoterapia cognitiva: uma revisão sistemática. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, Rio de Janeiro, v. 14, n. 1, 2018.
ZIMERMAN, David E. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica. Porto Alegre: Artmed, 2010.
Aula 3 — Planejamento, objetivos e acompanhamento do processo
A psicoterapia não é uma sequência de conversas sem direção. Embora o atendimento precise respeitar o ritmo e a singularidade de cada pessoa, o trabalho clínico exige organização, objetivos e acompanhamento contínuo. O psicólogo procura compreender a demanda, formular hipóteses e planejar intervenções coerentes com as necessidades apresentadas.
Esse planejamento não deve funcionar como um roteiro rígido. A vida da pessoa pode mudar, novas informações podem surgir e objetivos considerados importantes no começo podem perder sentido ao longo do processo. Por isso, o plano terapêutico precisa ser construído de maneira colaborativa e revisto sempre que necessário.
O Conselho Federal de Psicologia caracteriza a psicoterapia como um processo fundamentado em conhecimentos científicos, métodos e técnicas psicológicas. Isso exige que o profissional saiba por que realiza determinada intervenção, quais resultados pretende alcançar e como acompanhará o desenvolvimento do trabalho.
Da queixa inicial à compreensão do caso
A pessoa geralmente chega à clínica apresentando uma queixa. Pode dizer que está ansiosa, que não consegue dormir, que enfrenta conflitos familiares ou que perdeu o interesse pelas atividades cotidianas. Essa fala inicial é importante, mas não explica sozinha o problema.
O psicólogo precisa conhecer as situações que desencadeiam o sofrimento, os comportamentos que parecem mantê-lo, as relações envolvidas e os recursos disponíveis. Também deve considerar fatores sociais, culturais, econômicos e de saúde.
Imagine uma mulher que procura atendimento porque sente crises de ansiedade antes de ir ao trabalho. Durante as entrevistas, o psicólogo descobre que ela assumiu novas responsabilidades, recebe críticas frequentes de seu supervisor e acredita que qualquer erro poderá provocar sua demissão.
A queixa são as crises de ansiedade. Entretanto, a compreensão do caso pode incluir medo de avaliação, ambiente profissional hostil, excesso de autocobrança, alterações do sono e dificuldade para estabelecer limites.
Organizar essas informações permite construir uma formulação inicial. Ela funciona como um mapa provisório que ajuda o psicólogo a decidir quais aspectos precisam ser trabalhados.
A formulação clínica
A formulação clínica é uma explicação organizada sobre como determinada dificuldade pode ter surgido e por que continua presente. Ela não é um diagnóstico definitivo nem uma verdade sobre a pessoa.
Dependendo da abordagem teórica, a formulação pode destacar pensamentos, comportamentos, conflitos emocionais, experiências anteriores, relações familiares ou formas de atribuir sentido à própria vida. Mesmo com diferenças teóricas, sua função é orientar o acompanhamento.
Uma formulação pode considerar:
Considere um estudante que evita apresentar trabalhos. Antes de cada apresentação, ele imagina que esquecerá tudo e será ridicularizado. Para reduzir a ansiedade, falta às aulas ou pede que colegas apresentem em seu lugar. A esquiva produz alívio imediato, mas impede que ele desenvolva confiança e perceba que consegue enfrentar a situação.
Nesse exemplo, a formulação pode indicar que o medo de avaliação e a evitação participam da manutenção da dificuldade. Essa compreensão orientará os objetivos e as intervenções.
A formulação deve ser atualizada quando novas informações aparecem. Insistir em uma hipótese que não corresponde à experiência do paciente pode afastá-lo do processo.
Construção dos objetivos terapêuticos
Os objetivos ajudam a transformar uma demanda ampla em direções de trabalho mais claras. Eles devem ser construídos com a participação da pessoa atendida, e não simplesmente definidos pelo psicólogo.
Um paciente pode afirmar que deseja “parar de sentir ansiedade”. Entretanto, eliminar completamente a ansiedade não é um objetivo realista, pois ela faz parte das respostas humanas e pode ajudar a perceber riscos e preparar-se para desafios.
O objetivo pode ser reformulado de maneira mais concreta:
Da mesma forma, “quero ser feliz” é um desejo legítimo, mas ainda muito amplo. O psicólogo pode ajudar a pessoa a identificar o que precisa mudar em sua vida para aproximar-se dessa expectativa.
Os objetivos não precisam ser apresentados como metas frias. Eles funcionam melhor quando estão relacionados a experiências significativas. Para uma pessoa com ansiedade social, participar de uma reunião pode ser mais importante do que simplesmente reduzir uma pontuação em uma escala.
A aliança terapêutica envolve justamente a colaboração entre psicólogo e paciente em torno dos objetivos e das tarefas do acompanhamento. Quando a pessoa compreende o propósito das intervenções e participa das decisões, tende a envolver-se de maneira mais ativa no processo.
Objetivos possíveis e observáveis
Objetivos muito vagos dificultam a avaliação do progresso. Por isso, é útil transformá-los em mudanças que
possam ser percebidas na vida cotidiana.
Em vez de “melhorar a autoestima”, pode-se trabalhar para que a pessoa:
Em vez de “resolver os problemas familiares”, um objetivo mais possível seria desenvolver uma comunicação menos agressiva, compreender os limites de sua responsabilidade e aprender a recusar determinadas exigências.
Tornar os objetivos observáveis não significa reduzir a psicoterapia a números. Mudanças subjetivas, como sentir-se mais livre para falar, compreender uma experiência ou atribuir novo sentido a uma perda, também são importantes.
O psicólogo precisa evitar metas baseadas apenas nas expectativas de familiares, empresas ou instituições. Um adolescente pode ser levado à terapia porque os pais desejam que ele seja mais obediente. Nesse caso, o profissional precisa investigar a experiência do jovem e compreender se existe realmente uma demanda psicológica.
Planejamento das intervenções
Depois de formular o caso e definir objetivos iniciais, o psicólogo planeja as intervenções. A escolha deve considerar sua abordagem teórica, sua formação, as evidências disponíveis e as características do paciente.
As intervenções podem incluir:
Uma técnica não deve ser usada apenas porque está popular nas redes sociais ou porque funcionou com outra pessoa. O profissional precisa compreender sua finalidade e verificar se ela é apropriada para aquele caso.
A Organização Mundial da Saúde recomenda intervenções psicológicas estruturadas e fundamentadas em evidências para diferentes condições de saúde mental. Também destaca a necessidade de identificar adequadamente as pessoas atendidas, adaptar o cuidado ao contexto e acompanhar a qualidade e os resultados do serviço.
Acompanhamento da evolução
Avaliar a evolução não significa apenas perguntar se a pessoa está se sentindo melhor. Uma resposta geral pode esconder avanços importantes ou dificuldades que ainda precisam ser trabalhadas.
O acompanhamento pode observar mudanças em diferentes áreas:
Uma pessoa pode continuar sentindo ansiedade, mas ter deixado de evitar reuniões. Outra pode ainda viver momentos de tristeza, mas ter recuperado o contato com amigos e voltado a cuidar da rotina. Esses sinais indicam mudanças relevantes, mesmo que o sofrimento não tenha desaparecido completamente.
A avaliação pode ser realizada por meio da conversa clínica, da observação, de registros feitos pelo paciente e, quando apropriado, de instrumentos psicológicos autorizados. O uso desses recursos precisa ser compatível com a formação do profissional e com a finalidade do atendimento.
A literatura sobre avaliação de processo e resultado mostra que acompanhar sistematicamente a psicoterapia ajuda a verificar a adequação das intervenções e a compreender melhor seus efeitos.
Quando o progresso não acontece
Nem todo processo produz os resultados esperados no tempo imaginado. A ausência de melhora não deve ser interpretada automaticamente como falta de esforço do paciente.
O psicólogo precisa rever diferentes possibilidades:
Um paciente pode faltar frequentemente porque está evitando temas dolorosos, mas também pode estar enfrentando problemas financeiros, horários de trabalho incompatíveis ou dificuldades de transporte. A interpretação deve ser construída com base no diálogo.
Também é possível que o profissional não possua experiência suficiente para atender determinada demanda. Nesse caso, buscar supervisão ou realizar um encaminhamento responsável é uma conduta ética.
Revisão periódica dos objetivos
Os objetivos devem ser retomados durante o acompanhamento. O psicólogo pode perguntar:
“Quando você iniciou a terapia, desejava conseguir participar das reuniões sem fugir. Como percebe essa dificuldade atualmente?”
“O que melhorou desde o começo?”
“O que continua difícil?”
“Existe algum novo aspecto que você gostaria de trabalhar?”
Essa revisão permite reconhecer avanços e ajustar o
planejamento. Também ajuda a evitar que a terapia continue apenas por hábito, sem que psicólogo e paciente saibam o que estão buscando.
Alguns objetivos podem ser alcançados enquanto outros surgem. Uma pessoa que procurou atendimento por ansiedade profissional pode, depois de melhorar nessa área, perceber dificuldades importantes nos relacionamentos afetivos. Cabe aos dois avaliar se o acompanhamento será direcionado à nova demanda.
Recaídas e oscilações
A evolução psicológica raramente acontece em linha reta. A pessoa pode apresentar melhora e, depois, voltar a sentir sintomas diante de uma mudança, perda ou situação estressante.
Uma recaída não significa necessariamente que todo o trabalho foi perdido. Ela pode revelar quais recursos ainda precisam ser fortalecidos e quais situações representam maior vulnerabilidade.
O psicólogo pode ajudar o paciente a reconhecer sinais de alerta, identificar fatores que contribuíram para a piora e retomar estratégias anteriormente úteis. A forma como a pessoa reage à recaída também importa. Pensar “voltei ao começo” pode aumentar a desesperança, enquanto reconhecer os recursos já desenvolvidos favorece uma postura mais realista.
O planejamento pode incluir estratégias para lidar com dificuldades futuras, fortalecendo a autonomia em vez de criar dependência permanente do atendimento.
Encerramento da psicoterapia
O encerramento faz parte do processo terapêutico e, sempre que possível, deve ser planejado. Ele pode ocorrer quando os objetivos foram alcançados, quando o paciente deseja interromper, quando outro serviço se mostra mais adequado ou quando o psicólogo não pode continuar o atendimento.
Finalizar não significa que a pessoa nunca mais enfrentará dificuldades. Significa que ela desenvolveu recursos suficientes para seguir sem aquele acompanhamento naquele momento.
Nas sessões finais, é importante revisar:
O encerramento também pode despertar sentimentos de tristeza, medo, alívio ou insegurança. Esses sentimentos não devem ser ignorados. A relação terapêutica pode ter adquirido grande importância, e sua finalização precisa ser conversada.
A literatura clínica destaca que o término não é apenas uma formalidade administrativa. Ele pode constituir uma etapa significativa, na qual paciente e terapeuta elaboram a
separação e reconhecem as mudanças construídas durante o processo.
Interrupção e abandono
Algumas pessoas deixam de comparecer sem comunicar o desejo de encerrar. Isso pode ocorrer por insatisfação, dificuldades financeiras, mudanças de rotina, medo de abordar determinados assuntos ou problemas no vínculo terapêutico.
O psicólogo não deve interpretar toda interrupção como resistência. Quando adequado, pode realizar um contato breve e profissional para saber se a pessoa deseja continuar ou realizar uma sessão de encerramento.
Esse contato precisa respeitar a autonomia. O paciente tem o direito de interromper o acompanhamento e não deve ser pressionado a retornar.
Quando a desistência parece relacionada a uma falha do atendimento, o profissional deve refletir sobre sua atuação. Supervisão e revisão dos registros podem ajudar a identificar problemas que não foram percebidos durante as sessões.
Erros comuns no planejamento terapêutico
Um erro frequente é definir objetivos sem ouvir o paciente. Outro é utilizar metas tão amplas que se torna impossível reconhecer qualquer mudança.
Também são problemas comuns:
Esses erros podem ser evitados quando o planejamento permanece flexível, colaborativo e ligado às necessidades reais da pessoa.
Considerações finais
Planejar a psicoterapia significa organizar o cuidado sem transformar a pessoa em um conjunto de metas. A formulação clínica ajuda a compreender o problema, enquanto os objetivos indicam as mudanças buscadas. As intervenções são escolhidas para favorecer essas mudanças, e o acompanhamento permite verificar se o caminho está funcionando.
O paciente precisa participar desse processo. Seus valores, expectativas, limites e condições de vida devem ser considerados. O psicólogo oferece conhecimento técnico, mas não assume o controle da experiência do outro.
A evolução pode envolver redução de sintomas, mudanças comportamentais, maior compreensão emocional, fortalecimento dos vínculos ou aumento da autonomia. Nem todas as transformações aparecem rapidamente, e o planejamento precisa ser revisto sempre que necessário.
O encerramento também deve ser
compreendido como parte do cuidado. Uma psicoterapia bem conduzida não busca manter a pessoa indefinidamente dependente do profissional. Procura ajudá-la a reconhecer recursos, enfrentar dificuldades e continuar sua trajetória com maior autonomia.
Referências bibliográficas
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Reflexões e orientações sobre a prática da psicoterapia. Brasília, DF: CFP, 2023.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução CFP nº 13, de 15 de junho de 2022. Dispõe sobre diretrizes e deveres para o exercício da psicoterapia por psicóloga e psicólogo. Brasília, DF: CFP, 2022.
CORDIOLI, Aristides Volpato; GREVET, Eugenio Horacio. Psicoterapias: abordagens atuais. Porto Alegre: Artmed, 2019.
PEUKER, Ana Carolina; HABIGZANG, Luísa Fernanda; KOLLER, Sílvia Helena; ARAÚJO, Lisiane Bizarro. Avaliação de processo e resultado em psicoterapias: uma revisão. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 14, n. 3, 2009.
PERES, Rodrigo Sanches. Aliança terapêutica em psicoterapia de orientação psicanalítica: aspectos teóricos e manejo clínico. Estudos de Psicologia, Campinas, v. 26, n. 3, 2009.
ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.
SINGULANE, Bárbara Araújo Ribeiro; SARTES, Laisa Marcorela Andreoli. Aliança terapêutica nas terapias cognitivo-comportamentais por videoconferência: uma revisão da literatura. Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília, v. 37, n. 3, 2017.
ZIMERMAN, David E. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica. Porto Alegre: Artmed, 2010.
Estudo de Caso — Quando a terapia perde o rumo
O caso a seguir é fictício, mas foi construído a partir de situações comuns na prática clínica. Os nomes e detalhes foram criados apenas para fins educativos.
A procura por atendimento
Renata, de 35 anos, procurou psicoterapia após começar a sentir ansiedade intensa no trabalho. Ela havia sido promovida recentemente e, desde então, passou a acreditar que não conseguiria cumprir as novas responsabilidades. Antes das reuniões, sentia palpitações, dificuldade para respirar e vontade de fugir.
No primeiro encontro, o psicólogo Marcelo perguntou:
— O que está acontecendo com você?
Renata tentou explicar que se sentia pressionada pelo novo cargo, mas Marcelo interrompeu diversas vezes para preencher uma ficha. Perguntou sobre infância, relacionamentos anteriores, alimentação, sono e uso de medicamentos, sem explicar por que precisava daquelas informações.
Ao final da sessão, afirmou:
— Seu problema é baixa autoestima. Vamos trabalhar isso.
Renata saiu com a
sensação de que havia respondido a muitas perguntas, mas não tinha sido realmente ouvida.
Primeiro erro: transformar o acolhimento em interrogatório
A entrevista inicial precisa reunir informações importantes, mas não deve ser conduzida como uma investigação fria. O primeiro encontro também é um momento de acolhimento, construção de confiança e compreensão da maneira como a pessoa vivencia seu sofrimento.
A literatura sobre entrevistas iniciais destaca que esse momento não deve seguir um modelo rígido. O terapeuta precisa conhecer a queixa, observar a forma como a pessoa se apresenta e compreender suas expectativas, respeitando o ritmo possível para aquele encontro.
Marcelo recolheu dados, mas não permitiu que Renata organizasse sua própria narrativa. Além disso, apresentou uma conclusão antes de compreender suficientemente o problema.
Como evitar esse erro
O profissional poderia começar com uma pergunta mais aberta:
“Conte-me o que mudou depois da promoção.”
Depois, poderia investigar os sintomas, o ambiente de trabalho, os pensamentos antes das reuniões e o impacto da ansiedade na rotina. As perguntas sobre saúde e história pessoal continuariam importantes, mas seriam apresentadas de forma gradual e contextualizada.
Segundo erro: confundir queixa com demanda
Renata procurou ajuda por causa da ansiedade no trabalho. Marcelo concluiu rapidamente que o problema era baixa autoestima, sem explorar os elementos envolvidos.
Ao longo das sessões, Renata contou que seu supervisor fazia críticas diante de toda a equipe e comparava constantemente seu desempenho ao de outros funcionários. Ela também revelou que assumia tarefas além de sua função porque tinha medo de parecer incompetente.
A ansiedade era a queixa mais visível. A demanda, porém, envolvia medo de avaliação, excesso de responsabilidade, dificuldade de estabelecer limites e um ambiente profissional marcado por pressão e exposição.
Nas primeiras entrevistas, a demanda precisa ser construída e compreendida com cuidado. Uma explicação precipitada pode produzir um desencontro entre aquilo que o paciente necessita e aquilo que o terapeuta acredita que deve tratar.
Como evitar esse erro
Marcelo poderia organizar uma compreensão inicial em parceria com Renata:
“Parece que a promoção aumentou sua responsabilidade, mas as críticas públicas e o medo de decepcionar os outros também estão contribuindo para a ansiedade. Essa compreensão faz sentido para você?”
Essa formulação seria apresentada como hipótese, e não como diagnóstico
definitivo.
Terceiro erro: definir objetivos sem a participação da paciente
Na segunda sessão, Marcelo informou que o objetivo da terapia seria melhorar a autoestima de Renata. Não perguntou o que ela desejava mudar nem explicou como perceberiam sua evolução.
Renata, porém, tinha outras prioridades. Ela queria conseguir participar das reuniões sem sentir que iria desmaiar, aprender a recusar tarefas excessivas e decidir se deveria permanecer naquele emprego.
Sem objetivos compartilhados, as sessões começaram a parecer desconectadas da vida prática da paciente.
A aliança terapêutica envolve vínculo, colaboração e alguma concordância sobre os objetivos e as tarefas do tratamento. Quando o paciente não entende a direção do processo, sua participação pode diminuir.
Como evitar esse erro
Psicólogo e paciente poderiam definir objetivos mais concretos:
Esses objetivos poderiam ser revistos conforme novas necessidades surgissem.
Quarto erro: utilizar técnicas sem explicar sua finalidade
Marcelo começou a propor diferentes atividades. Em uma semana, pediu que Renata escrevesse frases positivas. Na seguinte, ensinou uma técnica de respiração. Depois, solicitou que ela escrevesse uma carta para o pai, embora a relação familiar ainda não tivesse sido relacionada claramente à demanda.
Renata cumpria as tarefas, mas não entendia como elas poderiam ajudá-la. Quando perguntou sobre isso, Marcelo respondeu:
— Confie no processo. Eu sei aonde quero chegar.
A psicoterapia precisa possuir fundamentação técnica e teórica. O profissional deve compreender a finalidade das intervenções e explicá-las de maneira acessível, respeitando a autonomia e a participação da pessoa atendida.
Como evitar esse erro
Antes de propor uma atividade, Marcelo poderia explicar:
“Percebemos que, antes das reuniões, você pensa que qualquer erro provará que não merece o cargo. Vamos registrar esses pensamentos para observar como influenciam sua ansiedade.”
Quando a pessoa compreende a finalidade da intervenção, pode avaliar se ela faz sentido e participar de forma mais consciente.
Quinto erro: minimizar uma ruptura no vínculo
Na quinta sessão, Marcelo disse:
— Você precisa parar de querer agradar a todos.
Renata sentiu-se julgada e permaneceu em silêncio. Nas sessões seguintes, começou a responder
sentiu-se julgada e permaneceu em silêncio. Nas sessões seguintes, começou a responder apenas o necessário e deixou de mencionar alguns conflitos do trabalho.
Marcelo percebeu o afastamento, mas interpretou o comportamento como resistência. Não perguntou como Renata havia recebido sua fala nem considerou que sua intervenção poderia ter causado desconforto.
Rupturas na aliança podem ocorrer quando a pessoa se sente incompreendida, criticada ou pouco considerada. O problema não está apenas no surgimento da tensão, mas na ausência de uma tentativa de compreendê-la e repará-la.
Como evitar esse erro
Marcelo poderia dizer:
“Percebi que você ficou mais distante depois da minha fala sobre agradar aos outros. Talvez eu tenha apresentado essa ideia de forma inadequada. Como foi ouvir aquilo?”
Essa abertura permitiria que Renata falasse sobre o desconforto. Reconhecer um erro não enfraquece o profissional; pode fortalecer a confiança.
Sexto erro: não acompanhar a evolução
Depois de dois meses, Marcelo nunca havia retomado os objetivos do atendimento. Perguntava como havia sido a semana e conduzia a sessão a partir dos temas que surgiam no momento.
Renata continuava ansiosa, mas já conseguia participar de algumas reuniões. Também havia começado a recusar tarefas que não pertenciam à sua função. Esses avanços não foram reconhecidos nem utilizados no planejamento das sessões seguintes.
A avaliação do processo ajuda a verificar se as intervenções estão sendo adequadas e quais mudanças estão ocorrendo. Ela pode considerar sintomas, comportamento, relações, autonomia e participação em atividades importantes.
Como evitar esse erro
Marcelo poderia revisar periodicamente o processo:
“Quando começamos, você evitava todas as reuniões. Hoje consegue participar de algumas. O que ajudou nessa mudança?”
“Quais situações ainda despertam mais ansiedade?”
“Os objetivos iniciais continuam importantes?”
Essa revisão permitiria reconhecer progressos e ajustar o planejamento.
Sétimo erro: atribuir toda dificuldade à paciente
Em determinado momento, Renata faltou a duas sessões. Marcelo concluiu que ela não estava comprometida com a terapia.
Quando finalmente perguntou sobre as ausências, descobriu que o horário de trabalho havia mudado e que Renata não conseguia chegar ao consultório a tempo. Ela também estava preocupada com os custos do acompanhamento.
O profissional havia interpretado uma dificuldade prática como falta de motivação.
Como evitar esse erro
Antes de atribuir um significado psicológico às
faltas, o terapeuta deve investigar o que ocorreu. Problemas financeiros, horários, transporte, adoecimento e responsabilidades familiares podem interferir na continuidade do atendimento.
Marcelo poderia conversar sobre mudança de horário, frequência temporária ou encaminhamento para outro serviço, caso não fosse possível manter as sessões.
O encerramento inesperado
Após uma sessão em que voltou a sentir-se pouco ouvida, Renata enviou uma mensagem dizendo que não continuaria o acompanhamento.
Marcelo respondeu apenas:
— Tudo bem. Quando estiver pronta para se comprometer, poderá voltar.
A resposta atribuiu novamente a responsabilidade do problema à paciente e encerrou o vínculo de forma defensiva.
A psicoterapia deve respeitar o direito da pessoa de interromper o atendimento. Quando possível, o profissional pode oferecer uma sessão de encerramento para compreender a decisão, revisar o processo e orientar a continuidade do cuidado.
Como evitar esse erro
Uma resposta mais adequada seria:
“Respeito sua decisão. Caso se sinta confortável, podemos realizar uma sessão de encerramento para conversar sobre sua experiência, revisar o que foi trabalhado e pensar nos próximos cuidados.”
Se Renata não aceitasse, sua decisão ainda deveria ser respeitada.
Como o caso poderia ter sido conduzido
Em uma condução mais cuidadosa, Marcelo iniciaria o atendimento oferecendo espaço para Renata explicar o motivo da procura. Investigaria a ansiedade, a situação profissional, as condições de saúde e os recursos disponíveis, sem transformar a conversa em interrogatório.
Depois dos primeiros encontros, apresentaria uma formulação provisória, verificando se ela correspondia à experiência da paciente. Os objetivos seriam construídos em conjunto e relacionados à vida cotidiana.
As técnicas seriam escolhidas de acordo com esses objetivos e explicadas com clareza. O profissional acompanharia os avanços, perguntaria sobre dificuldades e permaneceria atento à qualidade do vínculo.
Quando percebesse silêncio, afastamento ou discordância, Marcelo não trataria essas reações automaticamente como resistência. Procuraria compreender se algo no atendimento havia provocado desconforto.
Por fim, o encerramento seria planejado sempre que possível, reconhecendo as mudanças realizadas, as necessidades ainda presentes e os recursos que Renata poderia continuar utilizando.
Principais aprendizados do caso
O acolhimento não consiste em fazer muitas perguntas, mas em criar condições para que a pessoa consiga falar e ser
compreendida.
A queixa inicial não representa necessariamente toda a demanda. O psicólogo precisa investigar o contexto e construir hipóteses sem tratá-las como verdades definitivas.
Os objetivos terapêuticos devem ser compartilhados. O paciente precisa compreender o que está sendo trabalhado e participar das decisões.
A técnica não substitui o vínculo. Intervenções adequadas podem perder o sentido quando são aplicadas de maneira autoritária ou descontextualizada.
O acompanhamento da evolução permite reconhecer mudanças, rever hipóteses e evitar que a terapia siga sem direção.
Rupturas fazem parte das relações humanas. O profissional precisa estar disposto a ouvi-las, rever sua atuação e reparar possíveis falhas.
O encerramento também é uma etapa clínica. Deve proteger a autonomia da pessoa e favorecer a continuidade do cuidado, sem culpa ou julgamento.
Questões para reflexão
1. Em qual momento Renata começou a sentir que não estava sendo verdadeiramente ouvida?
2. Qual era a diferença entre sua queixa inicial e a demanda construída ao longo do caso?
3. Por que o objetivo “melhorar a autoestima” era insuficiente?
4. Como Marcelo poderia explicar melhor as técnicas propostas?
5. Quais sinais indicavam uma ruptura no vínculo terapêutico?
6. Por que as faltas não deveriam ter sido interpretadas imediatamente como desinteresse?
7. Como um encerramento planejado poderia beneficiar Renata?
Referências bibliográficas
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília, DF: CFP, 2005.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Reflexões e orientações sobre a prática da psicoterapia. Brasília, DF: CFP, 2023.
GERCHMANN, Augusta. Primeiras entrevistas: qual é a demanda? Revista Brasileira de Psicanálise, São Paulo, v. 46, n. 4, 2012.
PERES, Rodrigo Sanches. Aliança terapêutica em psicoterapia de orientação psicanalítica: aspectos teóricos e manejo clínico. Estudos de Psicologia, Campinas, v. 26, n. 3, 2009.
PEUKER, Ana Carolina; HABIGZANG, Luísa Fernanda; KOLLER, Sílvia Helena; ARAÚJO, Lisiane Bizarro. Avaliação de processo e resultado em psicoterapias: uma revisão. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 14, n. 3, 2009.
PINHEIRO, Márcia Estarque. A primeira entrevista em psicoterapia. IGT na Rede, Rio de Janeiro, v. 4, n. 7, 2007.
ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.